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3º Domingo da Quaresma - Ano C


A figueira não deu frutos, mas o Senhor não se desencoraja

Moisés viu a sarça ardente e ouviu a voz de Deus, mas, mesmo assim, teve de exercer seu ministério com muito sofrimento. Jesus reconhece não ter tido sucesso: a figueira não deu frutos. Mas, assim como o vinhateiro da parábola, o Senhor não se desencoraja. Está repleto de uma fonte inesgotável de confiança. Seu amor queima sem se consumir.

1ª leitura: “’Eu sou’ enviou-me a vós” (Êxodo 3,1-8.13-15)

Salmo: 102(103) - R/ O Senhor é bondoso e compassivo.

2ª leitura: A Escritura relata a vida de Moisés e de seu povo no deserto, para nos instruir. (1Co 10,1-6.10-12)

Evangelho: “Se não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo.” (Lucas 13,1-9)

 

Deus em nossas mãos

Não, os mortos na queda das torres gêmeas de Nova York não eram mais pecadores do que os outros, nem as vítimas dos terremotos e inundações ou dos bombardeios no Iraque ou na Síria... A morte está sempre por perto, chegando de improviso ou ao final de intermináveis agonias. A cegueira do cego de nascença, em João 9, não se devia a nenhum pecado, nem dele nem dos seus pais. A ideia do sofrimento como punição divina é tão antiga como a humanidade. A Bíblia assume este fato e o faz passar por um tratamento que só dará frutos de verdade na hora da Paixão e Ressurreição de Cristo. É quando ficamos sabendo que Deus deixa que os homens crucifiquem Jesus sem que legiões de anjos o impeçam; que Ele se põe à mercê das nossas vontades e paixões. Em resposta às surpresas que a Bíblia nos traz, o livro de Jó testemunha uma das mais significativas: como se dá que os justos tenham a mesma sorte que os culpados? É sempre difícil libertarmo-nos da imagem de um Deus intervencionista, que é quem decide tudo e que provoca tudo o que acontece em nossas vidas. Deus, por certo, não está ausente, está sempre "conosco". Mas simplesmente para compartilhar o que temos de atravessar, para que todas as coisas resultem para nós em vida e em glória. Deus se põe em nossas mãos, mas é finalmente para nos tomar nas suas.

Da Lei ao amor

Mas, então, o que significa a inquietante fórmula de Jesus: "Se não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo"? Todos, tanto os mais como os menos pecadores: digamos que os injustos e os justos. Até mesmo os justos, então, devem também se converter? Poderíamos responder que ninguém é verdadeiramente justo. Paulo repete que todos os homens são pecadores. João, em suas cartas, diz que quem se pretende sem pecado é mentiroso ou, pelo menos, inconsciente. Não creio ser necessário ir mais longe: ainda supondo que um homem fosse totalmente justo, mesmo assim seria preciso que se convertesse. Não a qualquer coisa, como, por exemplo, a melhores práticas, mas a Alguém. Converter-se é "voltar-se para". Para aquele que vem ao nosso encontro. Pôr o Cristo no centro de nossas vidas, sem esquecer que ele vem ao nosso encontro através de todo homem. Resumindo, trata-se de passar da Lei ao amor. Ao longo das suas cartas, Paulo explica que não podemos nos salvar pelas obras conforme a Lei, mas somente pela fé em Cristo. Pôr a sua fé em Cristo é sair de si para voltar-se para o Outro. E assim direcionados, somos na verdade "justificados", tornados justos. Mas então a palavra justiça muda de sentido: designa uma conformidade com o próprio Deus, que é amor. Só não morre quem se torna "participante da natureza divina". Paradoxo: não somos justificados e "salvos" pela busca de nossa própria perfeição, mas pela busca do "Outro".

A árvore e o fruto

Quer sejam as vítimas de Siloé ou os idosos que morrem em seu leito, somos todos “da mesma maneira” destinados à morte: santos ou pecadores. A Boa Nova consiste nisto: mesmo normalmente destinados à morte, somos finalmente destinados à vida. Podemos crer ou não nisto, mas esta fé nos liberta do fardo de nós mesmos, o que já é um critério de verdade. Crer na vida faz-nos sair de nós mesmos para que demos frutos. Com efeito, o fruto é algo que é chamado a deixar a árvore, é uma oferenda ao futuro, ao seu próprio futuro de árvore, mas multiplicando-se em expansão da vida. Encontramos aqui este impulso para fora de nós mesmos, o único que nos justifica e nos salva da morte. Por seu fruto, a árvore desapropria-se de si mesma, mas garante a sua perenidade. Podemos ler nesta ótica a parábola da figueira estéril. Não vamos imaginar qualquer sanção divina contra a árvore sem frutos. Esta árvore, na realidade, já está morta. Resta-lhe, no entanto, uma chance: o trabalho do "jardineiro". “Jardineiro” que é o próprio Deus que, em Cristo e por Cristo, está em trabalho. Estende a sua mão para nós, em nosso naufrágio: e agarrá-la ou ignorá-la vai depender da nossa liberdade. Deus está à nossa disposição para nos dar fecundidade. "Meu Pai é glorificado, diz Jesus em São João, quando produzis muitos frutos" (15,8). O fruto é que salva a árvore.

Marcel Domergue, jesuíta 

 

Onde estamos nós?

Uns desconhecidos comunicam a Jesus a notícia da horrível matança de alguns galileus no recinto sagrado do templo. O autor foi, mais uma vez, Pilatos. O que mais os horroriza é que o sangue daqueles homens se tenha misturado com o sangue dos animais que estavam a oferecer a Deus.

Não sabemos por que recorrem a Jesus. Desejam que se solidarize com as vítimas? Querem que lhes explique que horrendo pecado foi cometido para merecer uma morte tão ignominiosa? E se não pecaram, por que Deus permitiu aquela morte sacrílega no Seu próprio templo?

Jesus responde recordando outro acontecimento dramático ocorrido em Jerusalém: a morte de dezoito pessoas esmagadas pela queda de um torreão da muralha próxima da piscina de Siloé. Pois bem, em ambas as situações Jesus faz a mesma afirmação: as vítimas não eram mais pecadoras que outros. E termina Sua intervenção com a mesma advertência: «se não vos converterdes, perecereis todos vós».

A resposta de Jesus faz pensar. Antes de tudo, recusa a crença tradicional de que as desgraças são um castigo de Deus. Jesus não pensa num Deus «justiceiro» que vai castigando os Seus filhos e filhas repartindo aqui ou ali doenças, acidentes ou desgraças, como resposta a Seus pecados.

Depois, muda a perspectiva da situação. Não se detém em elocubrações teóricas sobre a origem última das desgraças, falando da culpa das vítimas ou da vontade de Deus. Volta o Seu olhar para os presentes e confronta-os consigo mesmos: devem escutar nestes acontecimentos a chamada de Deus à conversão e à mudança de vida.

Ainda vivemos abalados pelo trágico terremoto do Haiti. Como ler esta tragédia a partir da atitude de Jesus? Certamente, em primeiro lugar não é perguntar-nos onde está Deus, mas onde estamos nós. A pergunta que pode encaminhar-nos para uma conversão não é “por que Deus permite esta horrível desgraça?”, mas “como nós consentimos que tantos seres humanos vivam na miséria, tão indefesos ante a força da natureza?”.

Ao Deus crucificado não o encontraremos pedindo contas a uma divindade longínqua, mas identificando-nos com as vítimas. Não o descobriremos protestando contra a Sua indiferença ou negando a Sua existência, mas colaborando de mil formas por mitigar a dor no Haiti e no mundo inteiro. Então, talvez, possamos intuir entre luzes e sombras que Deus está nas vítimas, defendendo Sua dignidade eterna e nos que lutam contra o mal, alentando o seu combate.

José Antonio Pagola

 


 

 

 

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