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28º Domingo do Tempo Comum


Fidelidade de Deus

Para Deus não existem fronteiras nem excluídos! "Não há ferida que a sua mão não cure"! "Se nos falta a fé, o Senhor permanece fiel à sua palavra".

1ª leitura: Naamã voltou para junto do homem de Deus dizendo: não há outro Deus senão o de Israel! (2 Reis 5, 14-17).

Salmo: Sl 97(98) - R/ O Senhor fez conhecer a salvação e às nações revelou sua justiça.

2ª leitura: “Se com ele ficamos firmes, com ele reinaremos.” (2 Timóteo 2,8-13).

Evangelho: “Não houve quem voltasse para dar glória a Deus, a não ser este estrangeiro?” (Lucas 17, 11-19)

Curas à distância

A primeira leitura e o evangelho têm muitos pontos em comum. Trata-se, nos dois casos, de curas à distância: não há qualquer contato físico nem imposição das mãos. Naamã e os dez leprosos são enviados para um outro lugar: ao Jordão, o primeiro, e aos sacerdotes, os outros. Foi preciso que tivessem já uma fé sólida, para que se fiassem na palavra do profeta ou de Jesus. Este envia os doentes a que fizessem ser constatada uma cura que sequer ainda havia acontecido. Naamã recebera a ordem de ir banhar-se. Jesus e Eliseu parecem querer desapropriar-se desta recuperação da saúde. Isto, sem dúvida, para que se compreenda que só Deus é quem cura. Outros textos, pelo contrário, irão insistir no contato físico: a saliva posta na língua do mudo, o contato em segredo com as vestes de Jesus, etc. Trata-se aí de pôr em evidência a unidade de Cristo com o próprio Deus. Ele é a visibilidade do Deus invisível. As curas à distância exigem um deslocamento dos beneficiários. Eliseu e Jesus falam somente em “ir”, até ao rio ou aos sacerdotes. Os beneficiários é que deverão encontrar em si mesmos a exigência ou a oportunidade de voltarem até quem lhes trouxe de volta a saúde. A ação de graças, ou seja, o reconhecimento, em sentido forte, não se prescreve. Algo novo veio a se produzir no corpo destes homens que foram curados. Mas permaneceram a meio-caminho; isto não fez desabrochar neles nenhuma novidade do espírito. Compreendamos que somos todos beneficiários de inumeráveis curas à distância que, para a maioria das pessoas, passam despercebidas. Temos razão quando agradecemos a Deus «a priori», sem a consciência imediata de tudo o que Ele fez por nós. «Deus estava neste lugar e eu não o sabia!», diz Jacó quando acorda do seu sonho de uma escada que se erguia até ao céu. Deus lhe disse: «Eu estou contigo e te guardarei em todo lugar aonde fores» (Gênesis 28,15).

Saiamos de nós mesmos

No parágrafo que precede, omiti um deslocamento: os leprosos, Naamã e os dez homens da fronteira entre a Samaria e a Galileia vieram encontrar o profeta. Tudo começa aí. O que os colocou no caminho foi a insatisfação: têm dificuldade em suportar o estado em que a doença os colocou. Sofrimento físico, com certeza, mas também a separação do corpo social, a exclusão: notemos que os dez leprosos gritam para Jesus «à distância». A lepra não torna a pessoa apenas «doente», mas também «impura»: não pode receber a visita de ninguém. Resumindo: temos aí um grupo de pessoas em estado de grande carência. Não seria correto pensar que os milagres de Jesus teriam por função tão somente encher-nos de admiração e nos fazer descobrir a sua divindade: eles todos falam é de nós mesmos, dos nossos problemas, ainda que isto não nos salte aos olhos. O pior que pode nos acontecer é estarmos satisfeitos com o que somos e fazemos, sem nenhuma reserva e sem que nos questionemos. Bem aventurados os que têm fome e sede de outra coisa. Estamos todos em estado de carência, distantes de ser imagem e semelhança de Deus, o que se constitui em nossa última verdade. Por isso temos de ir para o Cristo, «a imagem do Deus invisível». Não se trata de se afundar na angústia de uma culpabilidade malsã, mas, ao contrário, trata-se de sairmos da nossa solidão para nos ligarmos a este Outro que nos abrirá caminhos novos. Em outro lugar, num outro modo de ser. Então, teremos sempre fome e sede dele, deste alimento impalpável e, no entanto, sempre oferecido. A Eucaristia significa também isto. Sem cessar, somos preenchidos e, sem cessar, a nossa fome renasce novamente. Nem mesmo o maná podia ser guardado como reserva. Era preciso renová-lo sempre. Estar vivo é isto.

O fim do caminho

Naamã e o leproso curado, este que não foi até aos sacerdotes, preferindo voltar até ao Cristo, são estrangeiros, não fazem parte do «povo eleito». Por aí ficamos sabendo que, perante Deus, não há privilegiados. A terra de Israel, «a terra santa», pode ser transposta para toda parte (final da primeira leitura). Ela é um ponto de partida, mas «vem a hora em que nem nesta montanha (Samaria) nem em Jerusalém adorareis o Pai [...] mas em espírito e verdade». Naamã não ficou na terra de Israel, mas voltou para a sua casa. O lugar em que estou é o lugar da Presença. O evangelho é que diz a última palavra de todos os nossos percursos: o Samaritano esqueceu tudo, exceto o essencial: encontrar-se com aquele cuja palavra nos faz viver. Por isso está dito dos outros nove leprosos estarem simplesmente «purificados». Somente o que voltou até ao Cristo foi dito como «salvo». Os seus companheiros se fecharam na saúde recuperada; permaneceram a sós com ela. Já o Samaritano compreendeu que, para além da cura, há o encontro, a relação com aquele cuja palavra restituiu-lhe a saúde. Notemos que nos versículos 15 e 18, ele «voltou glorificando a Deus», e o fez, no versículo 16, «agradecendo a Jesus», aos pés de quem ele se prostra “com o rosto por terra”. Por Cristo e em Cristo é que podemos chegar até Deus. A palavra «agradecer» (dar glória, dar graças) tem a sua importância: Deus nos deu tudo o que somos; nós Lhe «agradecemos». É a volta do dom à sua origem e tudo recomeça novamente. É um círculo sempre de novo percorrido, incessantemente. Admirável troca de amor. No fim do evangelho de hoje, Jesus diz ao Samaritano: «Levanta-te e vai! Tua fé te salvou». Todas as palavras devem ser tomadas em consideração. Em particular «vai». Assim como Naamã, de novo, este homem deve ir viver a sua vida. Mas de uma outra maneira: as coisas permanecerão as mesmas, mas eles as viverão em ação de graças.

Marcel Domergue, jesuíta (tradução livre de www.croire.com pelos irmãos Lara)

 

A cura

O episódio é conhecido. Jesus cura dez leprosos enviando-os aos sacerdotes para que os autorizem a voltar sãos para as suas famílias. O relato podia ter terminado aqui. Ao evangelista, no entanto, interessa-lhe destacar a reação de um deles.

Uma vez curados, os leprosos desaparecem de cena. Nada sabemos deles. Parece como se nada tivesse acontecido nas suas vidas. No entanto, um deles “percebe que está curado” e compreende que algo grande lhe foi presenteado: Deus está na origem daquela cura. Entusiasmado, volta “louvando a Deus em grandes gritos” e “dando graças a Jesus”.

Em geral, os comentaristas interpretam a sua reação sob a forma de agradecimento: os nove são desagradecidos; só o que voltou sabe agradecer. Certamente é o que parece sugerir o relato. No entanto, Jesus não fala de agradecimento. Diz que o samaritano voltou “para dar glória a Deus”. E dar glória a Deus é muito mais do que dizer obrigado. Dentro da pequena história de cada pessoa, provada por doenças, enfermidades e aflições, a cura é uma experiência privilegiada para dar glória a Deus como Salvador da nossa vida. Assim diz uma célebre fórmula de São Irineu de Leão: “O que a Deus lhe dá glória é um homem cheio de vida”. Esse corpo do leproso curado é um corpo que canta a glória de Deus.

Acreditamos saber tudo sobre o funcionamento do nosso organismo, mas a cura de uma grave doença não deixa de nos surpreender. É sempre um “mistério” experimentar em nós como se recupera a vida, como se reafirmam as nossas forças e como cresce a nossa confiança e a nossa liberdade.

Poucas experiências se podem viver tão radicais e básicas como a cura, para experimentar a vitória frente ao mal e ao triunfo da vida sobre a ameaça da morte. Por isso, ao nos curarmos, nos é oferecida a possibilidade de acolher de forma renovada a Deus que vem a nós como fundamento do nosso ser e fonte de vida nova.

A medicina moderna permite hoje a muitas pessoas viverem o processo de cura com mais frequência que em tempos passados. Temos de agradecer a quem nos cura, mas a cura pode ser, além disso, ocasião e estímulo para iniciar uma nova relação com Deus. Podemos passar da indiferença à fé, da rejeição ao acolhimento, da dúvida à confiança, do temor ao amor.

Este acolhimento saudável de Deus pode curar-nos de medos, vazios e feridas que nos fazem mal. Pode nos enraizar à vida de forma mais saudável e liberta. Pode sanar-nos integralmente.

José Antonio Pagola


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