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20º Domingo do Tempo Comum C 16


O fogo do amor

Cristo "veio para lançar fogo sobre a terra", o fogo do Espírito, o fogo do amor. Fogo que Ele leva ao coração de cada crente. Fogo que já queimava em Jeremias, o profeta perseguido, e que se propaga na "nuvem imensa das testemunhas" de todos os tempos. E espalha-se em nós, quando mantemos os nossos olhos fixos em Jesus "que é a origem e o termo da fé".

Falsas seguranças

Guerra e paz

Esta é uma das passagens mais desconcertantes do evangelho. Em outros lugares, Jesus diz para irmos primeiro reconciliar-nos com o nosso irmão, se alguma coisa ele tem contra nós, antes de, no altar, apresentarmos a nossa oferta (Mateus 5,23-24) ou para amar os nossos inimigos (Mateus 5,44). Justamente antes da sua morte, diz aos discípulos que lhes deixa a sua paz, que lhes dá a sua paz (João 14,27). E não se acabaria mais de citar os textos todos que nos convidam à reconciliação, à renúncia da vingança e à unidade. Eis que, agora, diz que veio trazer o fogo, a divisão, a hostilidade ao seio mesmo das famílias! Penso ser preciso considerar estas palavras de Jesus como uma previsão e não como uma intenção da parte dele. Falava do que irá de fato acontecer e não do que veio trazer. Podemos constatar, com efeito, que todos os que buscam trazer a paz e promover o amor desencadeiam hostilidade contra si mesmos. Lembro-me de como se censurava um homem empenhado em apaziguar dois de seus companheiros de estrada que estavam prestes a brigar. Ele era um padre. Logo os dois antagonistas se olharam, pondo-se imediatamente de acordo, para dizer que sabiam muito bem o que ele iria lhes dizer, passar «uma lição de moral», e que nada tinham a fazer com as suas pieguices. Que fique bem entendido, este padre não estava falando de Deus, mas apenas de razão e tolerância. É necessário nos rendermos à evidência: pregar o amor pode provocar o ódio entre aqueles que escolheram odiar.

Esperando o batismo

Bem no meio deste discurso, em que Jesus nos fala das divisões que se haverão de produzir com respeito a ele, encontramos uma espécie de incisão, ou de parêntesis que, à primeira vista, está fora deste contexto: «Devo receber um batismo e como estou ansioso até que isso se cumpra!» Por que, inesperadamente, esta alusão à cruz que está por vir? Notemos antes de tudo que esta junção de guerra e de cruz encontra-se em João 18,10-11: para defender Jesus, Simão Pedro tira a sua espada e corta a orelha do servo do Sumo Sacerdote. É a guerra, portanto. Quando, então, Jesus diz a Pedro: «Embainha a tua espada. Deixarei eu de beber o cálice que o Pai me deu?» O batismo, o cálice, todos eles são símbolos que falam da cruz. Coincidem na cruz o paroxismo da violência e a vitória da paz. O paroxismo da violência, porque esta se exerce contra o único justo; este a quem só se pode odiar sem se ter razão alguma. Vitória da paz, porque o Cristo perdoa os que o conduzem à morte. Nenhuma violência divina, em resposta à violência humana; a violência é estancada, é desarmada. No entanto, dum certo ponto de vista, a humanidade ainda está muito aquém da sua Páscoa. Temos de seguir o Cristo no caminho percorrido por ele, mas a hora da vitória da paz ainda está por vir. Enquanto esperamos, vivemos sob o regime dos irmãos inimigos, ou seja, da violência a ser incessantemente superada.

O lugar do combate

Esta passagem do evangelho pode ser compreendida de modo atravessado. Alguns poderiam usá-la para justificar o emprego da violência a fim de se defender ou promover «a religião». Está em moda atualmente dizer que as religiões provocam a violência. Podemos antes dizer que não é impossível que os homens assumam a religião como vetor de sua própria violência instintiva. Nesta mesma linha se poderia dizer que «liberdade, igualdade, fraternidade» são responsáveis pelas violências do Terror, na Revolução Francesa. Lembremos que, na Bíblia, não vemos jamais os Hebreus baterem-se por Deus. Ao contrário, era Deus quem combatia por seu povo. No Novo Testamento, os discípulos que foram rejeitados em certa cidade recebem do Cristo a ordem de se contentarem com ir propor a paz - sim, a paz - em outras cidades. Nada de chamar o fogo do céu para incendiar as cidades que se recusaram recebê-los (Lucas 9,54). Temos de imitar Deus que faz cair a sua chuva e brilhar o seu sol tanto sobre os injustos como sobre os justos (Mateus 5,45). Não temos de julgar, ainda menos, de condenar e, jamais, de superar os combates verbais, quando isto se faz necessário. Enfim, o fogo que o Cristo vem trazer para iluminar a terra é o fogo interior do Espírito (Mateus 3,11). O combate anunciado será antes de tudo o combate contra uma parte de nós mesmos. O combate da luz e das trevas de que falam as primeiras linhas do evangelho segundo São João.

Marcel Domergue, jesuíta (tradução livre de www.croire.com pelos irmãos Lara)

 

Em chamas

São muitos os cristãos que, profundamente arraigados numa situação de bem-estar, tendem a considerar o cristianismo como uma religião que, invariavelmente, deve preocupar-se em manter a lei e a ordem estabelecida.

Por isso, resulta tão estranho escutar da boca de Jesus expressões que convidam não ao imobilismo e conservadorismo, mas à transformação profunda e radical da sociedade: «Vim trazer fogo ao mundo e oxalá já estivesse a arder...”. Pensais que vim trazer ao mundo paz? “Não, mas sim divisão”.
Não nos resulta fácil ver Jesus como alguém que traz um fogo destinado a destruir tanta mentira, violência e injustiça. Um Espírito capaz de transformar o mundo, de forma radical, mesmo à custa de enfrentar e dividir as pessoas.

O crente em Jesus não é uma pessoa fatalista que se resigna ante a situação, procurando, acima de tudo, tranquilidade e falsa paz. Não é um imobilista que justifica a atual ordem das coisas, sem trabalhar com ânimo criador e solidário por um mundo melhor. Tampouco é um rebelde que, movido pelo ressentimento, deita abaixo tudo para assumir ele mesmo o lugar daqueles que derrubou.
Quem entendeu Jesus atua movido pela paixão e aspiração de colaborar numa mudança total. O verdadeiro cristão leva a «revolução» no seu coração. Uma revolução que não é «golpe de estado», mudança qualquer de governo, insurreição ou relevo político, mas sim busca de uma sociedade mais justa.

A ordem que, com frequência, defendemos, é ainda uma desordem. Porque não conseguimos dar de comer a todos os esfomeados, nem garantir os seus direitos a todas as pessoas, nem sequer eliminar as guerras ou destruir as armas nucleares.

Necessitamos de uma revolução mais profunda que as revoluções econômicas. Uma revolução que transforme as consciências dos homens e dos povos. H. Marcuse escrevia que necessitamos de um mundo «em que a competição, a luta dos indivíduos uns contra os outros, o engano, a crueldade e o massacre já não têm razão de ser».

Quem segue a Jesus, vive procurando ardentemente que o fogo aceso por Ele arda cada vez mais neste mundo. Mas, antes de mais nada, exige de si mesmo uma transformação radical: «só se pede aos cristãos que sejam autênticos. Esta é verdadeiramente a revolução» (E. Mounier).

José Antonio Pagola


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