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16º Domingo do Tempo Comum C 16


Acolher a Palavra. O que vem primeiro: servir aos irmãos ou acolher a Palavra? O dilema é falso. Somos convidados a ser seja Marta seja Maria. Caridade e contemplação andam de mãos dadas: pede cada uma a outra.

1ª leitura: "Meu Senhor, não prossigas viagem sem parar junto a mim, teu servo" (Gênesis 18,1-10).

Salmo: Sl 14(15) - R/ Senhor, quem morará em vossa casa?

2ª leitura: "O mistério escondido por séculos e gerações, mas agora revelado" (Colossenses 1,24-28)

Evangelho: "Marta recebeu-o em sua casa. Maria escolheu a melhor parte" (Lucas 10,38-42).

 

O pão da Palavra

A ligação entre a Palavra e o alimento está muito presente nas Escrituras. Ezequiel recebeu a ordem de devorar o Livro, tema que o Apocalipse irá retomar (Ezequiel 2,8-3,3; Apocalipse 10,9). Até mesmo na linguagem corrente se fala em «devorar um livro», «alimentar-se» de um autor, beber as palavras de um orador… E «nem só de pão vive o homem, mas de tudo o que sai da boca de Deus» (Deuteronômio 8,3). Pela palavra, o outro nos invade, nos informa, nos forma e reforma. Mas só a Palavra de Deus merece que nela depositemos fé total. O alimento representa a relação que mantemos com a natureza, com a terra e com o trabalho dos homens. Ele pode ser objeto de partilha ou de litígio. A palavra, que normalmente nos faz viver da sabedoria dos outros, pode tornar-se sarcasmo ou injúria. A Palavra de Deus é criadora da nossa humanidade e do universo, de onde ela a fez brotar. Em João 6, a Palavra fez-se pão. Tudo isso encontramos na Última Ceia de Cristo e, a este respeito, a Paixão é que dirá a última palavra. Enquanto espera, Maria, irmã de Lázaro, antecipa o acolhimento da Carne e do Sangue que serão entregues por nós, nutrindo-se da Palavra.

Marta e Maria

Por que Marta foi censurada, enquanto se esforçava para receber bem a Jesus? Este lhe diz duas palavras: «Tu te preocupas e andas agitada». Tendo em vista o quê? Sem dúvida, preparar uma refeição que fosse especial, fora do costumeiro. Para ela, a visita de Jesus parece ser uma exigência, geradora de deveres. Não se dá conta de que aquela presença é o presente mais extraordinário que Deus nos pode dar. Jesus não veio até nós para fazer-se servir, mas para nos anunciar a Boa Nova: que Deus é o inimigo do nosso mal e da nossa morte. Ele profere a Palavra que faz viver. Marta quer «alimentar» Jesus, que está a caminho de Jerusalém, onde se dará a si mesmo em alimento. Maria escuta a sua palavra. Assumir estar «quite» com Deus, imaginar poder dar a Ele o que Lhe é devido, em resumo, querer fazer o necessário para considerar-se justo, isto é o que gera «inquietude e agitação». Determinada maneira de se falar em «méritos» a se adquirir não escapa a esta ilusão. Aí, nos encontramos fechados na contabilidade narcísica das nossas boas condutas. Maria põe-se inteiramente aberta à Palavra criadora. Não se ocupa consigo mesma, apenas com ele que, falando com ela, faz com que ela exista. Por outras palavras, Paulo diz a mesma coisa quando explica que passamos do regime da Lei e das obras da Lei ao regime da fé (Gálatas 2,15-21). Daqui em diante, não tenhamos mais o olhar voltado para nós mesmos, mas para o Cristo, presença de Deus.

O amor é que comanda

Será, então, que nestas condições podemos fazer qualquer coisa, não importa o que? Pois, como diz Paulo (1 Coríntios 10,23), «Tudo é permitido». Acrescenta, no entanto, imediatamente: «mas nem tudo edifica». Decide-se, assim, não em função do que é permitido ou proibido, mas do que é construtivo ou destrutivo. O que constrói é o amor que nasce da fé. E ao amor não se comanda. Ao contrário, ele é que nos «comandará». Às vezes, é bom preparar uma refeição, da mesma forma que Marta, mas com outro espírito: sem inquietude e sem agitação, sem se deixar «açambarcar» (versículo 40). Muitas vezes, temos nos sacrificado demais a uma religião legalista e moralizadora. «Ama e faze o que quiseres», escreve Santo Agostinho. Então, tudo o que fizeres será expressão deste amor. Mas ainda há aí uma armadilha: não nos cansamos de «experimentar o amor». Trata-se antes, como fez Maria, de nos abrirmos para receber. E o que recebemos? O Espírito, que é amor. O Espírito abre-nos às palavras que o mundo e a vida nos dirigem. Cristo, hoje, de fato não nos visita mais como visitou Marta e Maria. Ele vem até nós através de todos com quem nos encontramos, através das alegrias, dos sofrimentos e, até mesmo, dos crimes dos nossos contemporâneos. Escolhamos a melhor parte e escutemos Jesus. Ele, sem cessar, nos fala através de todas as coisas.

Marcel Domergue, jesuíta (tradução livre de www.croire.com pelos irmãos Lara)

 

Necessário e urgente

Enquanto o grupo de discípulos segue o seu caminho, Jesus entra sozinho numa aldeia e dirige-se a uma casa onde encontra duas irmãs a quem aprecia muito. A presença de Jesus, seu amigo, provoca nas mulheres duas reações muito diferentes.

Maria, seguramente a irmã mais jovem, deixa tudo e fica «sentada aos pés do Senhor». A sua única preocupação é escutá-lo. O evangelista descreve-a com os traços que caracterizam o verdadeiro discípulo: aos pés do Mestre, atenta à sua voz, acolhendo a sua Palavra e alimentando-se dos seus ensinamentos.

A reação de Marta é diferente. Desde que chegou Jesus, não faz mais do que esforçar-se em acolhê-lo e atendê-lo devidamente. Lucas descreve-a preocupada por múltiplas ocupações. Sobrecarregada pela situação e magoada com a sua irmã, expõe as suas queixas a Jesus: “Senhor, não te importa que a minha irmã me tenha deixado sozinha com o serviço? Diz-lhe que me ajude”.

Jesus não perde a paz. Responde a Marta com um grande carinho, repetindo pausadamente seu nome; logo lhe faz ver que também a Ele o preocupa a sua aflição, mas que deve saber que escutá-lo é tão essencial e necessário que nenhum discípulo pode ficar sem a sua Palavra. “Marta, Marta, andas inquieta e nervosa com tantas coisas; só uma é necessária”. “Maria escolheu a parte melhor e não lhe será tirada”.

Jesus não critica o serviço de Marta. Como o poderia fazer se Ele mesmo está a ensinar a todos com o Seu exemplo de viver acolhendo, servindo e ajudando os demais? O que critica é o seu modo de trabalhar de forma nervosa, debaixo da pressão de demasiadas ocupações.

Jesus não contrapõe a vida ativa e a contemplativa, nem a escuta fiel da sua Palavra e o compromisso de viver na prática o Seu estilo de entrega aos demais. Alerta sim, para o perigo de se viver absorvido por um excesso de atividade, em agitação interior permanente, apagando em nós o Espírito, contagiando o nervosismo e a aflição mais do que a paz e o amor.

Pressionados pela diminuição das forças, estamos nos habituando a pedir aos cristãos mais generosos todo o tipo de compromissos dentro e fora da Igreja. Se, ao mesmo tempo, não lhes oferecemos espaços e momentos para conhecer Jesus, escutar sua Palavra e alimentar-se do seu Evangelho, corremos o risco de fazer crescer na Igreja a agitação e o nervosismo, mas não o seu Espírito e a Sua paz. Poderemos vir a encontrar-nos com comunidades animadas por funcionários afligidos, mas não por testemunhas que irradiam o alento e a vida do seu Mestre.

José Antonio Pagola


 

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