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Homilia da Solenidade da Ascensão do Senhor


1. A liturgia da palavra de hoje aborda um tema que nos questiona porque imersos numa cultura que apagou o brilho da transcendência e do sentido da vida. Nos Atos dos Apóstolos, São Lucas fala do “dia” em que Jesus “foi levado” para o céu (At 1, 2). Na Carta aos Efésios, São Paulo, além de nos motivar à fé no Cristo ressuscitado, fundamento da nossa esperança, afirma que Cristo foi elevado como Senhor do universo e Cabeça da Igreja, o seu Corpo (Ef 1,22-23). O evangelho de Mateus descreve com simplicidade a Ascensão do Senhor, mas lembra-nos que, até naquele momento, “alguns duvidaram” (Mt 28,18).

2. A Ascensão do Senhor aponta para o "visível", o "invisível" e a "dúvida" como componentes do nosso itinerário de fé. Pois Mateus constata que a dúvida esteve no coração dos discípulos até o último momento da presença de Jesus entre eles. Os textos bíblicos indicam que a dúvida ou a fé não tem ligação direta com a visibilidade ou a invisibilidade. Alguns duvidam quando não veem, outros duvidam exatamente porque veem.

3. O prêmio Nobel de física (1932), o alemão Werner Heisenberg (+1976), não tem dificuldade em admitir no âmbito da física nuclear que a realidade é feita de tal modo que as coisas invisíveis não podem ser ignoradas pela física. E acrescenta: “o primeiro gole do copo das ciências naturais transforma-nos em ateus, mas, no fundo do copo, espera-nos Deus”. O espaço cósmico está repleto de imagens e de sons que não vemos, nem ouvimos e a ciência inclui nos seus postulados que o cientista precisa de fé para avançar na sua pesquisa.

4. Jesus disse a Tomé que “são felizes os que crêem sem ter visto”. E o paradoxal é que, se para alguns é a invisibilidade que leva à dúvida, para outros é a visibilidade que obscurece a verdade dos fatos. O céu, no qual a humanidade de Jesus penetrou em toda sua potência de ressuscitado, é a profunda e indescritível experiência de comunhão, de alegria, paz. Esta experiência inaudita é reservada também a nós incorporados a Cristo. Este mundo não é o nosso "definitivo". Prepara-nos para ele. O céu está para além da visibilidade, e da fugacidade do tempo presente. Até porque se fosse palpável não seria pleno, nem infinito.

5. Qual alternativa nós preferimos: acreditar na possibilidade de que a vida tem sentido, é luminosa e deságua no infinito do mar, que é Deus, ou que tudo não passa de uma fugaz bolha de sabão que, esvaída, nos deixa no Nada, na frustração absoluta? "Sic transit gloria mundi" reza o cardeal carmelengo nas exéquias papais. Glórias, prazeres, fortunas, honras, arrogância da vida presente são bolhas de sabão. Encantam e passam. Algumas vezes passam mais rapidamente do que pensávamos. Levam embora com elas os sonhos, desejos e a própria vida e a vontade de viver.

6. A fé cristã expressa a profundidade do mistério através de linguagens simbólicas, metáforas, mas podemos perceber no conjunto da sua maravilhosa narrativa uma racionalidade tão simples e límpida que sempre comove aqueles realmente interessados na busca da verdade. O filósofo alemão Rüdiger Safranski (1944) afirmou que sem a fé aberta ao mistério da transcendência do ser, incluído o ser humano, nossa existência torna-se impossível. A própria civilização atual que quer matar Deus a qualquer custo, é sepultada antes.

7. A fé em Jesus glorificado à "direita do Pai" é um postulado permanente do qual só a Igreja, solitariamente, é guardiã, servidora e anunciadora. A Igreja só serve se for perita em transcendência, tanto na área do conhecimento, como na área da vivência. A mera horizontalidade inserida nas preocupações terrenas de líderes religiosos ligadas à promoção ou libertação humanas é insuficiente, mesmo sendo importante, para a qualificação da nossa identidade cristã. O encargo que a Igreja recebeu do Senhor foi o de anunciar, de comunicar pela palavra e pela vida sua presença invisível, mas potente e salvadora. Ele prometeu que estaria conosco até o fim dos tempos. Cremos firmemente que somos uma só coisa com ele, hoje, na invisibilidade da fé, e amanhã na plenitude da visão. Amém!

Pe. José Cândido - Pároco em São Sebastião - Barro Preto


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