mapLocalização
Veja o Mapa
mapMissas dominicais
7h, 9h, 11h e 19h

        3295-3741

Homilia da Missa da Noite de Natal


1. São Lucas na sua narrativa do Natal resume o nascimento de Jesus com uma frase lapidar e extremamente simples: "Maria deu à luz o seu filho primogênito" (Lc 2,7). O termo primogênito não indica o primeiro de uma sucessão de possíveis outros filhos. Na cultura bíblica o termo bekor em hebraico, proto-tokon em grego, identifica a criança que, além de ser o primeiro filho pertence de modo particular a Deus e a Ele é consagrado. Primogênito significa, portanto, muito amado, predileto, querido por Deus.

2. A partir desta afirmação de que Maria deu à luz o seu filho amado, Lucas compõe o cenário da história universal onde estas coisas aconteceram. Pela primeira vez, escreve Joseph Ratizenger sobre o nascimento de Jesus, há um recenseamento em toda terra. Há um período de paz em todo império romano. Há uma unidade política e linguística que facilitava a comunicação entre os povos. Era chegada a plenitude dos tempos, no dizer do Apóstolo Paulo.

3. Na quarta écloga de Virgílio encontramos o eco das Sagradas Escrituras judaicas na literatura universal. Virgílio cultiva uma esperança difusa de que, enfim, tinha chegado um novo tempo. "Agora tudo deve mudar" exclamava o grande poeta! Neste contexto de universalidade é tecido o plano salvífico de Deus para todos os homens de todos os tempos. Jesus, o Messias Salvador, nasce neste período específico de paz e unidade da história da humanidade: "Naqueles dias" (Lc 2,1).

4. O nascimento de Jesus é proclamado pelo hino de louvor que os anjos cantam aos pastores: "Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens do seu agrado". Este versículo que é o início e o germe do hino por nós cantado todos os domingos e, em especial hoje, pode ser desdobrado em duas partes. Na primeira parte o termo glória significa a potência salvadora de Deus que se revela sobre a terra.

5. Uma potência que, contraditoriamente, se manifesta na fragilidade de um bebê e não se identifica com a potência do homem "com suas botas de tropa de assalto e seus trajes manchados de sangue"(Is 9,4). Por isto a potência divina se consolida em uma humanidade pacificada: "Glória a Deus e Paz aos homens"(Lc 2,14). Paz que esta criança vem nos trazer com seus frutos: a liberdade e a vida, a justiça e o amor, o perdão e a acolhida, a alegria e a confiança, a dignidade e o respeito, a esperança e a fé, a partilha e a fraternidade, simplicidade e lealdade, aconchego e ternura.

6. A segunda parte do versículo fala dos destinatários destes bens. A Paz prometida no Natal é para aqueles que são amados por Deus. Em primeiro lugar, Jesus o amado, o unigênito do Pai. E nele todos os que foram redimidos pelo seu sangue. A graça, que nos faz amados, agraciados, chega até nós pela fé e pelo batismo. A partir de Cristo todo ser humano tem a possibilidade da paz e dos seus frutos.

7. São ainda frutos da Paz: a valorização da vida, da pessoa com seus direitos fundamentais, a esperança solidamente construída no presente, o apreço pela razão e pela autonomia do ser humano e, sobretudo, a beleza e a arte. A fé e a narrativa cristã foram e são a motivação mais potente para todas as expressões mais belas de arte que a humanidade conheceu. A beleza das coisas que vemos, a solenidade da nossa liturgia, a harmonia da música sacra de todos os tempos. Tudo isto que embeleza a liturgia do nosso Natal e do Natal celebrado em todo o mundo se deve a este Menino que tanto amamos: pois ele nasceu para nós, o Príncipe da Paz!

8. Por outro lado, em todas as épocas, a paz que se respira na simplicidade e fragilidade do Presépio vai encontrar resistências no coração do homem sequioso de poder conforme nos atesta Isaías na primeira leitura. Quando vemos hoje no nosso país e no mundo a disseminação de uma violência sem limites, temos medo de que a paz trazida pelo Menino Jesus, jamais se estabeleça.

9. Quando vemos a corrupção atingindo alguns de nossos políticos e homens públicos, que não têm vergonha, nem caráter, mas só se preocupam com o prestígio, o poder, às custas da mentira e do engano das massas populares, temos medo de que a paz trazida pelo Menino Jesus, jamais se estabeleça.

10. Quando vemos o despudor, a desvalorização da família, o cinismo de uma mídia e de uma civilização que nega o sagrado valor da vida humana; quando vemos a tentativa de nos colocar como antiquados e retrógrados simplesmente porque queremos viver em paz e de acordo com a nossa consciência, temos medo de que a paz trazida pelo Menino Jesus, jamais se estabeleça.

11. Quando parece que nossos lares estão se desmoronando, nossas comunidades estão vazias de fé; quando sentimos a dor das rupturas, a morte batendo às portas, a rebeldia dos mais novos; quando experimentamos decepções, desencantos e desamores, temos medo de que a paz trazida pelo Menino Jesus, jamais se estabeleça.

12. Todos temos medo. "O povo que estava na escuridão, viu uma grande luz, para os que habitavam nas sombras da morte, uma luz resplandeceu" (Is 9,1-2). As trevas e a morte que causam medo foram vencidas, segundo a profecia de Isaías. Também os pastores tiveram medo, relata o evangelho de Lucas. Para todos estes medos, os deles e os nossos, o anúncio do anjo nesta noite nos conforta e nos liberta. "Não tenhais medo! Eu vos anuncio uma grande alegria que o será para todo povo: hoje na cidade de Davi, nasceu para vós um Salvador, que é o Cristo Senhor". A uma só voz, os homens que são do seu agrado se juntam ao exército celeste, aclamando: "Glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos homens por ele amados"! Feliz Natal!

Pe. José Cândido


Localização

      
        

holy bible