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Homilia do II Domingo da Quaresma - Ano B


1. A Liturgia da Palavra deste segundo domingo da quaresma começa com uma dramática narrativa chamada de "lenda cultual": "O Sacrifício de Isaac". A história está situada no contexto dos cultos religiosos anteriores à religião judaica. Estes cultos pagãos previam sacrifícios de seres humano aos deuses. O fato é que os redatores do livro do Gênesis criaram esta narrativa a partir destes ritos pagãos com o objetivo de apresentar o patriarca Abraão como o Pai da Fé, e a extinção definitiva deste tipo de sacrifício pelo Deus de Israel. Israel não precisava imitar as antigas religiões pagãs para provar que sua fé e sua obediência comportavam exigências de dedicação iguais ou superiores às antigas religiões. Abraão se submeteu radical e obedientemente ao Deus de Israel, mas o próprio Deus eliminou a necessidade do horror da imolação de vítimas humanas.

2. O sacrifício de Isaac impressionou a arte e a literatura ocidental pela complexidade das emoções e a irracionalidade dos propósitos. Soren Kierkegaard, o grande filósofo e teólogo dinamarquês, encontrou nesta narrativa o fundamento para sua definição da fé tirada do teólogo do século II, Tertuliano: credo quia absurdum ( creio porque é absurdo). Nesta perspectiva, registrada no seu opúsculo Temor e Tremor, analisa o ato de fé como um risco, um salto no escuro, um crer e esperar no limite do desespero. Alguns exemplos de outras obras que interpretam este relato bíblico:

Caravaggio, mestre florentino da pintura clássica. A obra mais famosa deste relato bíblico. Uma obra prima exposta na Galleria degli Ufizi de Florença. A interpretação do mestre valoriza os aspectos positivos do ser humano. A doçura, a compaixão estampadas em especial no rosto do anjo. 

Rembrant, o grande pintor holandês: também óleo sobre tela no museu Hermitage de S. Petersburgo. A técnica perfeita de contraste de luz e sombras mostra o drama do ser humano nas contradições de sua existência.

Chagall: russo de origem judaica focaliza mais o drama da perseguição aos judeus no decorrer da história ocidental. É uma obra contemporânea e a  menos conhecida. Está exposta no Museu Nacional Marc Chagall em Nice, na França (Musée Nationale Message Biblique Marc Chagall - Nice, France). Todas as obras deste autor são impregnadas de uma profunda religiosidade. São dezessete pinturas dedicadas aos relatos mais importantes do livro do Gênesis

Ghiberti, o escultor florentino do século XII. O sacrifício de Issac orna a segunda porta em bronze do famoso batistério da catedral de Florença.

Stravinski, compositor russo contemporâneo. O texto bíblico e a sua música atonal, como a de Schoenberg, revela o holocausto judaico.

3. O relato bíblico revela serve de marco referencial para os dramas pessoais e coletivos da humanidade: o desespero, o medo, o futuro incerto, a decadência, a morte, sinais de nossa frágil condição humana. Sem explicação para o sofrimento o homem se apossa de uma fé cega que o impulsiona para frente contra toda desesperança. A revelação dos sentimentos divinos na história de Abraão, quando não iluminada pela história de Jesus, mostra um Deus contraditório que muda sem nenhuma razão plausível, por mero capricho, o roteiro da trama. Deus tinha prometido a Abraão, cuja mulher Sara nem podia ter filhos, uma descendência numerosíssima (Gn 13, 14-18). Sara milagrosamente lhe dá um filho, Isaac. Filho único, e por isso era muito amado, e Abraão já era muito velho. Na contagem bíblica com 100 anos (Gn 21, 1-7). Sem dizer o motivo, Deus lhe manda sacrificar o filho no monte Moriah.  Abraão obedece. "EIS-ME AQUI". 

4. Curiosamente, Abraão não é passivo nos seus diálogos com Deus. Ele não permite, por exemplo, que Deus destrua Sodoma, argumenta a favor da cidade e, apesar de Abraão ter-se equivocado, Deus ouve suas ponderações. Assim Lot e sua família foram salvos. Agora, quando seu interesse é pessoal e muito maior, ele nada fala e parte resolutamente para sacrificar o seu filho. O que ele deve ter pensado no seu interior, não o sabemos. O texto sugere que ele não pensou, ele obedeceu. "Deus tem um plano, ele sabe o que faz, compete a mim cumprir sua palavra", é o que Abraão deve ter pensado. Esta história permaneceria na obscuridade de uma tragédia se não fosse lida à luz do conjunto de toda história da salvação. Nós cristãos lemos a história do sacrifício de Isaac no monte Moriah como prefiguração do sacrifício de Jesus no Calvário. (Neste momento, a assembleia dos fiéis é convidada a "ler" os quadros laterais da nossa igreja onde, de um lado, o Antigo Testamento é relido pelo Novo Testamento, no lado oposto).  Mas há uma inversão completa nas duas narrativas. No monte Moriah, Deus pede a Abraão o seu filho para ser imolado. No Calvário, na mesma região do Moriah, Deus entrega seu Filho ao mundo. Na história de Abraão Deus impede o sacrifício de Isaac, na história de Jesus, Deus permite a sua imolação até o fim. 

5. O Evangelho do Tabor revela-nos que Deus não impede a imolação do seu Filho Jesus porque era necessário provar que o seu amor é infinitamente mais radical que a obediência de Abraão. E não se poderia admitir que a obediência modelar do "patriarca da fé" se igualasse ou superasse a obediência do Filho de Deus. Mas o relato da Transfiguração antecipa que a Palavra definitiva do Pai sobre o seu Filho não é o túmulo escuro e sem vida, mas o esplendor da glória, da vida e da luz (mostrar quadro). Admiramos Kierkegaard na sua reflexão sobre a fé. Mas ele analisa o drama humano sobre a ótica do AT onde não está plenamente revelado o projeto de Deus. O sacrifício de Jesus, o Filho de Deus, sim, resgata o ser humano da morte e o leva a superar o sofrimento da vida presente por uma fé lúcida e razoável. O Pai que permitiu ao seu Filho experimentar as trevas da dor, do abandono e da morte, não exige do ser humano uma entrega irracional, um salto no escuro, uma fé no absurdo. A luz que emerge do monte da transfiguração e se projeta para o túmulo vazio na ressurreição de Cristo elimina qualquer dúvida quanto à razoabilidade da fé. Creio, porque compreendo o projeto total de Deus a meu respeito e à respeito de toda história humana. Não necessitamos mais de uma fé tão heroica, como a de Abraão, que obedece sem nada compreender dos desígnios de Deus. Nossa fé repousa serenamente no rosto de Cristo iluminado no Tabor e refulgente após sua morte e ressurreição. O Pai o pôs à prova e ele lhe foi fiel em seu nome e em nome de todos nós em grau infinitamente maior do que a fidelidade heroica de nosso pai Abraão. Deus dispensou o sacrifício de Abraão e de todo ser humano em previsão da nossa redenção no Sangue de Cristo na Cruz. Que a Palavra de Deus hoje acolhida nesta Liturgia e a Eucaristia celebrada com amor torne mais luminosa nossa experiência de fé. Que nossa Eucaristia nos leve a amar a um Deus que prefere atrair sobre si o sacrifício que nos era devido pela nossa culpa. Amar mais a um Deus que revelou o seu projeto de salvação onde a palavra decisiva é a vida. AMÉM!

Pe. José Cândido


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