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A Revelação da Trindade

A Revelação da Trindade


1. A possibilidade da revelação da Trindade, caso seja admitida em alguma circunstância, só pode se dar a partir do evento Jesus de Nazaré, interpretado pelo testemunho apostólico e consignado nos escritos do Novo Testamento. Esta revelação apresenta, segundo alguns, não poucos questionamentos, pois, trata-se de entender o que de fato os escritos apostólicos querem dizer. Pois a confissão de fé da Igreja posterior está de tal maneira permeada pela cultura grega que os pressupostos sobre os quais tal confissão se fundamenta caminham em direção diversa. Assim, o significado da afirmação da filiação divina de Jesus e, conseqüentemente, a confissão de fé trinitária são postos em cheque. Se Jesus não é o Filho Unigênito, como confessa o símbolo Niceno-Constantinopolitano também o Pai não possui a prerrogativa da paternidade como relação essencial no seio da Trindade Imanente e igualmente o Espírito não pode ser dele procedido. Neste caso não há lugar para as hipóstasis divinas. Deus não seria nem Pai, nem Filho, nem Espírito Santo. Seria simplesmente Deus em seu absoluto Mistério de Transcendência como na compreensão judaica à qual também os apóstolos estiveram vinculados. Para alguns noções de Filho de Deus ou de Espírito Santo não necessariamente projetam distinções na essência divina. Mas são adjetivos a serem compreendidos como atributos e não como relações subsistentes da essência una de Deus. Em outras palavras, a nomenclatura e os conceitos teológico-trinitários oriundos da cultura essencialista dos gregos e que não era familiar à cultura judaica permitem à nossa mente indagar se há correspondência real e verdadeira entre as afirmações do NT e as da Igreja posterior. É bom lembrar que tais afirmações estão presentes também nas várias confissões de fé desde os tempos apostólicos, liturgia, pregação e ensino dos antigos Padres.

2. Por outro lado deve-se concordar que, apesar da terminologia e principalmente da fé apostólica se expressar em contextos muito diferentes daquela da Igreja posterior, há muita clareza em relação a uma experiência expressa por Jesus em sua relação com Deus a quem os registros documentais denominam de Pai. É uma relação ímpar e inusitada, chegando mesmo a causar escândalo entre os judeus. Uma relação de intimidade tão especial e única como de uma criancinha com o pai ou mãe. Tal relação era absolutamente impensável numa cultura judaica, a não ser em termos teóricos. Tudo isto é devaneio de Jesus ou dos apóstolos, invenção dos hagiógrafos ou uma realidade misteriosa? Não se colocar estas perguntas, já postas, é renunciar a um fundamento racional para a nossa confissão de fé. Ou seja, postular a localização da fé cristã no âmbito da fé cega. A fé cega tranquiliza e resolve não respondendo, não enfrentado as questões, mas propicia problemas mais graves tais como o isolamento, o sectarismo, o fundamentalismo e, de quebra, o fanatismo, irmão gêmeo da violência. Mas o cristianismo jamais renunciou a condição da inquietação e da busca bem como o estatuto da plausibilidade em um diálogo desafiador mas permanente e construtivo com a inteligência e a cultura humana de todos os tempos. O cristianismo prefere confrontar os ditames de uma razão crítica e ilustrada e enfrentar as questões que lhe são propostas a se recolher em uma condição de "seita" quase sempre composta de lunáticos e fanáticos. Esta é a tarefa da teologia. Demonstrar a partir dos dados da revelação sobre os quais todo discurso teológico se funda que o cristianismo é plausível, é razoável, mesmo que não se deixe prender nos limites da razão humana. Não houve devaneio de Jesus, nem má-fé dos protagonistas originários. De fato, Deus realizou um encontro admirável e profundo com a humanidade. Ele próprio, e não um mensageiro ou uma criatura intermediária, veio até nós através do seu Filho Unigênito que se fez homem sem deixar de ser Deus na força da comunhão do Espírito que o une ao Pai e que ele envia para a divinização do criado. Este anúncio iluminou a cultura grega por dentro e não foi por ela deturpado como insinuam alguns equivocadamente. O processo correto deve ser assim entendido: o helenismo foi cristianizado e não o cristianismo foi helenizado.

 

Padre José Cândido da Silva 

Pároco da Igreja São Sebastião - Barro Preto


 

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