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Dogma

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Documentos, relativamente mais recentes, da Igreja na América Latina e no Brasil restabelecem o valor das expressões do catolicismo popular. O olhar atento dos pastores da Igreja, além de valorizar as nossas tradições religiosas, deve purifica-las à luz dos dados reguladores da Revelação Cristã e perceber nelas aquelas “sementes do Verbo” presentes nas várias experiências religiosas da humanidade e nas várias culturas, mesmo as não cristãs.

Além de uma forma bastante peculiar de viver e expressar a sua fé, o povo brasileiro criou e conserva várias formas, algumas muito ricas, outras nem tanto, de expressão da sua fé religiosa, originariamente cristã. Esta origem cristã já se revela na vinculação com o ano litúrgico da Igreja que, por sua vez, é a celebração no tempo do Mistério de Cristo. Temos as festas populares do ciclo do Natal, do ciclo da Páscoa, de Pentecostes, da Eucaristia, do Mistério de Deus Uno e Trino. Somam-se a estas comemorações litúrgicas e oficiais fundamentadas na História da Salvação que é consignada nos Sagrados Escritos, as comemorações de origem devocional, ligadas aos santos e em especial a Maria, Mãe de Jesus. Sem dúvida, o encantamento por Maria, chamada de Nossa Senhora, é uma característica marcante do catolicismo popular.

As festas, mais conhecidas, que giram em torno do mistério da natividade de Jesus são o “reisado”, as pastorinhas e os autos de Natal. O presépio, tradição oriunda de São Francisco de Assis, deve ser também lembrado principalmente quando assume um formato cultural muito próprio nosso. O “reisado” celebrado por ocasião da Festa da Epifania, seis de janeiro, faz memória através de cantos, danças, comidas típicas, roupas coloridas e visitas às casas, da peregrinação dos Reis Magos em visita ao Menino Jesus ao presépio de Belém. “As pastorinhas”, uma dança que comemora a alegria dos pastores e da gente simples do campo pelo nascimento de Jesus. Manifestações comoventes, puras que devem ser conservadas porque fazem memória no interior da nossa cultura destes acontecimentos primordiais da nossa fé. 

Logo após o ciclo de natal começa o período pré-pascal com a quaresma. A quaresma era percebida em tempos idos, principalmente no campo, como um período de penitência bastante rigorosa e austeridade. Junto com estes elementos oficiais da práxis católica devem se acrescentar outras expressões, estas sim, estranhas à fé e que hoje graças ao mundo secularizado naturalmente desaparecem. As crendices, as lendas que cercam o tempo da quaresma povoam privilegiadamente uma mentalidade supersticiosa e pouco cristã. Mas o tempo da Páscoa, principalmente, a grande semana, chamada de Semana Santa é muito rica de expressões da piedade popular. As tradicionais encenações da Paixão são extraordinariamente concorridas, a via-sacra, outros costumes mais localizados como o “Fogaréu”, no Goiás, se bem usados, produzem reflexão e, de fato, celebram o Mistério Cristão. Em Minas, nas cidades históricas e, mesmo nas outras cidades do interior, o povo organiza com muita dedicação e, freqüentemente com pompa, as várias procissões durante a Semana Santa. São chamadas de cerimônias externas. 

A procissão da Soledade de Nossa Senhora ( ou das Dores de Maria), quando a imagem de Maria com as espadas de dor cravadas no seu peito, é transportada, pelas mulheres, para uma capela, ou um lugar, fora da matriz. Em alguns lugares, não há homogeneidade em relação aos dias da semana, esta procissão é feita na segunda-feira santa. Na terça-feira santa os homens levam o Senhor dos Passos para outro lugar. A imagem do Senhor dos Passos apresenta Jesus com a cruz às costas na sua queda. Por isto ele está ajoelhado com um joelho e o dorso inclinado. Na quarta-feira santa realiza-se a famosa procissão do Encontro quando as mulheres retornam com a imagem de Nossa Senhora das Dores e os homens com o Senhor dos Passos e os dois cortejos se encontram na praça principal. Na praça está armado o palanque de onde o pregador profere o famoso Sermão do Encontro. No final do Sermão ele convida as imagens ao encontro o que necessariamente arranca copiosas lágrimas dos fiéis. A procissão do Encontro é sempre acompanhada de bandas de música e o coro das “Bê-Us”. Este é o nome curioso do coro das mulheres vestidas de preto com o rosto coberto com véu igualmente preto. O nome delas se pode explicar pela canto das antífonas em latim cujo início soa como Bê-u. Naturalmente o latim se desfigurou com o tempo. Há ainda na quinta-feira santa o Lava-Pés e o respectivo Sermão do Mandato deslocado da celebração Eucarística da quinta-feira santa. Este rito é feito de forma teatral em praça pública. Na sexta-feira santa é realizada a famosa procissão do Senhor Morto, precedida pela encenação do Descimento de Cristo da cruz e o Sermão do “Descendimento”. Nesta procissão há uma grande riqueza de vestes que cobrem desde os personagens bíblicos como também os soldados romanos. Muitas vezes o desfile é muito luxuoso. O tropel dos cavalos da guarda pretoriana e o ruído das lanças dos soldados nas ladeiras das cidades históricas emprestam a estas comemorações uma dramaticidade a fazer inveja a qualquer teatrólogo. As bandas quebram o silêncio compungido da multidão com as marchas fúnebres. Mas o que mais comove a multidão é o canto da Verônica que, enquanto canta trechos em latim de versículos tirados do profeta Isaías, desdobra o véu no qual foi estampado o rosto ensanguentado de Jesus. Muitas vezes são grandes cantoras líricas de Minas Gerais, como Maria Lúcia Godoy, a representarem Verônica. O silêncio durante o canto da Verônica é impressionante. É de fato um belíssimo espetáculo. Para muitos é o ponto alto da Semana Santa. O Domingo de Páscoa reserva um maravilhoso espetáculo que se repete na Festa de Corpus Christi. Este espetáculo chamado de “ Triunfo Eucarístico” é próprio de Ouro Preto. Tem suas origens no Brasil Colônia. Alguns o definem como sendo um grandioso desfile precursor do atual carnaval do Rio de Janeiro. Uma comparação que eu, pessoalmente, não considero muito adequada. Os tapetes nas ruas e nas janelas dos sobrados coloniais. As associações e, no século XVIII e XIX os nobres, com suas roupas de gala. Os centenas de anjos ricamente vestidos. As imagens históricas em andores ornamentados, as bandas de música, o clero e, enfim, toda uma pompa para celebrar o Domingo de Páscoa e o Mistério da Eucaristia.

Além das ricas celebrações populares da Páscoa há também as várias comemorações espalhadas pelo Brasil em honra ao Espírito Santo. São as chamadas festas do Divino. Em Minas merece destaque a festa do Divino em Diamantina. Movimenta a alta sociedade local de onde são escolhidos o rei e a rainha do Divino. Os cortejos luxuosos com roupas feitas por figurinistas da capital emprestam uma solenidade nunca vista. Décio Noviello, um famoso pesquisador e figurinista mineiro que desenha e produz, por exemplo, as roupas das personagens de óperas famosas apresentadas no Palácio das Artes, como Turandot, é um dos que já desenhou e produziu as roupas para a festa do Divino em Diamantina. É uma festa da corte com reis, rainhas, princesas, príncipes, lacaios, nobres e plebeus. Alguns afirmam tratar-se de uma reação à queda da monarquia no Brasil identificada com o catolicismo. 

Poder-se-ia prolongar mais, descrevendo as festas dos santos. No Nordeste, os festejos de junho, São João, São Pedro e São Paulo, são considerados, com suas danças, costumes, comidas típicas e capacidade de agregação do povo tão ou mais importantes que o Natal. Sem dúvida, algo a ser corrigido. Mas é oportuno registrar as festas do Rosário dos Pretos. Pois esta comemoração é muito própria dos negros. Isto é muito significativo para a evangelização. Mostra a inculturação da fé cristã entre os negros sem nenhuma concessão às religiões africanas como em outros lugares. Não há nenhum sincretismo mas toda a cultura negra-africana se faz presente na história contada pelos cantos, nos grupos de congada ou marujada, nas vestes, nas danças, nas bandeiras, nos ritos. No entanto, todo conteúdo é cristão, as figuras veneradas são a de Maria, Mãe de Jesus, o próprio Jesus. E as narrativas mesclam a vida sofrida dos escravos e dos negros com a história da salvação.

Todas as mais importantes manifestações descritas são regadas pela palavra, chamada de “Sermão”. Aí está a possibilidade preciosa dos pastores, através de uma boa pregação fundamentada na Palavra de Deus, iluminar mais ainda e desocultar os elementos riquíssimos da nossa profissão de fé e prática cristãs presentes nestas expressões da religiosidade do nosso povo.

 

Padre José Cândido da Silva

Pároco da Igreja São Sebastião - Barro Preto


 

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