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A divindade de Jesus

A divindade de Jesus


1. Prolegômenos

De uns tempos para cá alguns querendo a qualquer custo conciliar a fé bíblica com o espiritismo tentam provar pelo Novo Testamento que Jesus era, segundo a doutrina espírita, um espírito iluminado e que chegou a uma grande perfeição humana graças a reencarnações sucessivas onde se purificou pela lei do carma. Desta forma Jesus se equivaleria a qualquer outro humano que tenha percorrido o mesmo processo como Francisco de Assis, Ghandi, e outros. Que alguém possa ter esta ou outras teorias a respeito de Jesus é um direito que advém da liberdade de crença. Outra coisa é a insistência em querer demonstrar o indemonstrável: que a revelação bíblica oferece suporte para isto e mais, dizer-se cristão e católico, ou seja, pretender comungar a fé da Igreja Cristã crendo de forma completamente contrária. 

Na verdade demonstra ignorância bíblica quem identifica a condição divina de Jesus só pelo título, Filho de Deus. Esta relação de profunda intimidade de Jesus com Deus é manifesta nas escrituras do Novo Testamento em grande leque de expressões apontando para significados variados sempre em relação à revelação de Deus para nós e à nossa salvação. Conhecer e experimentar Jesus na profundidade do seu ser e da sua missão permite-nos um mergulho na nossa própria humanidade delineando seus significados mais profundos e apalpando o mistério recôndito do coração e da alma humana. Desejos, sonhos e realizações nossas encontram no mistério de Jesus de Nazaré, o Messias proclamado pelos apóstolos e discípulos, o porto seguro de um topos (um lugar, negação da mera u-topia), onde o finito esbarra com o infinito de Deus. Jesus é Deus humanizado como condição única do ser humano se divinizar. Retirar da fé cristã a divindade de Jesus é retirar o nosso maior tesouro pois é esta a esperança cristã que rasga o véu do nosso ocaso absoluto e da dissolução do nosso eu nas trevas do não ser e da morte.

A Bíblia e a Tradição da Igreja sempre tiveram muito cuidado em preservar o equilíbrio tanto da humanidade quanto da divindade de Jesus. Um Jesus divino que não fosse verdadeiramente humano eliminaria a encarnação de Deus e o fenômeno de um Jesus só aparentemente humano seria uma farsa. Assim não haveria salvação para nós pois "o que não se encarna não se redime". Por outro lado um Jesus meramente humano jamais poderia revelar plenamente o rosto de Deus - Ele é a Verdade; jamais poderia levar-nos à definitiva comunhão com o Pai - Ele é o Caminho; e jamais poderia introduzir-nos no Reino das bem-aventuranças - Ele é a Vida. A diferença é que a linguagem eclesiástica se expressa em consonância com a lógica da filosofia grega. Se traz a vantagem de uma clareza conceitual perde em vitalidade ao domesticar o Mistério. Já a bíblia, não tendo preocupação lógica, traz a vantagem de uma linguagem metafórica e profundamente aberta ao Mistério, mas perde em clareza conceitual favorecendo interpretações dúbias principalmente quando fincadas em culturas que lhe são estranhas. Decorre a importância de articular bem a proclamação dogmática com a sua clareza com a profissão de fé bíblica com a sua riqueza espiritual.

 

2. Cristologia dos Sinóticos

A cristologia bastante primitiva de Marcos identifica a relação única e especial de Jesus com Deus através dos sinais prodigiosos. Jesus se revela em ação e não tanto por declarações verbais. São vinte sinais extraordinários em que se manifesta o poder de Deus sobre a natureza, sobre as enfermidades, sobre a própria morte, sobre as potências do mal cujos representantes, os demônios se prostram diante dele. Desta forma o título de Filho de Deus torna-se o eixo do evangelho de Marcos, ainda que na sua forma completa só apareça em duas ocasiões. Duas ocasiões fundamentais: no início como proclamação do objetivo do seu evangelho: "início do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus" ( Mc 1,1); e no final como a realização deste mesmo objetivo com a proclamação da filiação divina de Jesus feita pelo pagão o centurião romano que exclamou: "Verdadeiramente este homem era filho de Deus". ( Mc 15,39). Nas teofanias do batismo ( Mc 1, 11) e da transfiguração ( Mc 9, 7) Jesus é chamado de Filho amado. De modo especial, sob juramento, Jesus responde com decisão e clareza à pergunta do Sumo Sacerdote se ele era o Messias, o Filho do Deus Bendito. "Sim, eu sou" ( Mc 14, 61-62). Esta resposta provocou a indignação, o escândalo e a condenação de Jesus à morte ( Mc 14, 63-64). Mas também em Marcos, Jesus perdoa os pecados sabendo ele e seus ouvintes que esta era uma prerrogativa exclusivamente divina. Ele o faz conscientemente e prova a sua divindade pelos sinais que acompanham sua palavra de perdão ( Mc 2, 1-12).

Mateus já inicia pela genealogia a demonstrar que Jesus é o Messias prometido desde o Gênesis. A intimidade de Jesus com o Pai é dada de maneira comovente em três momentos altamente significativos: quando no "êxtase da alegria" Jesus se chama a si mesmo de Filho e revela a sua profunda intimidade com o Pai ( Mt 11, 25-27); quando, como em Marcos, mas ainda de forma mais solene e dramática ele responde ao Sumo Sacerdote diante do Sinédrio que o ouve escandalizado a proclamar: "Sim, tu o dizes" ( Mt 26,64). E a passagem clássica na confissão de fé de Pedro onde a Igreja de Mateus professa inequivocamente a divindade de Jesus ( Mt !6,16). Lucas desde a Anunciação já proclama a divindade de Jesus quando atribui ao anjo a expressão "Filho do Altíssimo" ( Lc 1,32) . Mas outros tantos títulos indicam a mesma realidade: o Ungido, o Salvador, o Messias, o Senhor. Todos estes títulos são tipificados em qualidade única e em grau de excelência, vale dizer, superior à qualificação dada no Antigo Testamento. Inúmeras passagens do Evangelho de Lucas comprovam a absoluta novidade destes títulos quando aplicados a Jesus. ( Cf. Lc 2, 29-32; 4, 21; 7, 12-23; 9, 18-21). O fundamento pré-pascal da relação única e exclusiva que Jesus tem com o Deus dos pais é a inaudita invocação com a qual Jesus se refere a Deus como seu Pai. Abbá é um termo do dialeto aramaico infantil que apesar de aparecer só três vezes no Novo Testamento ( Mc 14, 36; Rm 8, 15 e Gl 4, 6) é a base para as outras 170 vezes em que Jesus chama a Deus de Pai: 4 vezes em Marcos, 15 em Lucas, 42 em Mateus e 109 em João. 

 

3. Cristologia de João e Paulo

São João fala claramente desde o prólogo do seu evangelho e no início da sua primeira carta da pré-existência de Cristo no Verbo. Jesus é o Verbo eternamente gerado pelo Pai que se fez carne e habitou entre nós ( Jo 1, 1-18). Algumas vezes Jesus é de tal forma identificado com o Pai que da sua boca saem as mesmas expressões solenes da teofania do Sinai: "Eu sou" (Jo 8,58 13, 19 e outros recorrentes tais como 1,23; 6, 35; 6,51; 8,12; 8,58; 10, 7- 9; 10, 11-14 etc). Em João, a unidade absoluta de Jesus com o Pai pode ser comprovada ao largo de capítulos inteiros e não em frases isoladas. O discurso sobre a obra do Filho (5, 19-47). Discurso na Sinagoga de Cafarnaum que fala do Pão da Vida. Discurso de testemunho sobre si mesmo e sua identidade (8, 14-58). A sua declaração solene de que é Filho de Deus na festa da dedicação do templo que causa furor aos judeus que decidem matá-lo (10, 22-38). Repreensão a todos os que não crêem na sua filiação divina (12, 37-50). Todo o capítulo 14 onde ele se autoproclama o caminho, a verdade e a vida, que ninguém vai ao Pai senão por ele e que quem o vê, vê o Pai. Todo o capítulo 15, o discurso da videira, ainda o capítulo 16 que fala do envio do Paráclito e o majestoso e impressionantemente belo capítulo 17, a grande prece sacerdotal que coroa toda a revelação da obra salvadora do Filho Unigênito do Pai oferecido em oblação para a salvação de todos. Algumas frases de toda esta coletânea impressionante de textos joânicos são lapidares e reassuntivas tais como: "Eu e o Pai somos Um" (Jo 10, 30); "o Pai está em mim e eu no Pai" (Jo 10, 38). Neste texto Jesus se defende da acusação de blasfêmia citando um texto dos salmos do Antigo Testamento em que se afirma: "Eu disse: sois deuses" ( Sl 82,6). Jesus faz ironia com os seus acusadores ao empregar esta afirmação aplicada aos juízes do antigo Israel que ao terem o poder de julgar e condenar se assemelhavam a deuses. É óbvio que Jesus não estava identificando a sua divindade com uma pretensa divindade dos seus julgadores. Quem assim pensa deveria queimar todo o resto dos escritos joânicos.

Por outro lado, se João insistisse unicamente na unidade perfeita com o Pai correria o risco de encobrir a humanidade de Jesus também tão importante para nossa salvação. Por isto, por poucas vezes, o Evangelho de São João também ressalta o "esvaziamento" (em grego Kénosis) do Verbo encarnado. "O Pai é maior do que eu" (Jo 14, 28). Pela encarnação Deus Filho despojou-se de sua divindade - sem deixar de ser Deus- e assumiu a nossa condição de servo e mortais para nos resgatar da própria morte. Na literatura do Novo Testamento, especialmente em Paulo existe a idéia constante da pré-existência do Filho Eterno que é enviado pelo Pai para a salvação do mundo. Assim indicam os textos de Gl 4,43; Rm 8,3s; Jo 3,16 e 1Jo4,9. A fórmula literária e teológica do envio nestes textos é muito significativa: mediante a referência do Filho enviado ao mundo pelo Pai, o Cristo Jesus é diferenciado de outros enviados por Deus, como os profetas. Nele Deus agiu salvificamente com uma intensidade inédita e com um caráter de tal modo definitivo que jamais será sobrepujado por quem quer que seja (Fl 2,9). Assim se expressa também o autor de hebreus 1,1s e os hinos cristológicos encontrados em Filipenses (2, 6-11) que afirma que Jesus Cristo é o ser humano humilhado e exaltado que veio de Deus; em Colossenses (1, 15-20) que afirma que Jesus Cristo é a imagem visível do Deus invisível; o hino, já citado, do prólogo de S. João (1, 1-18) que esclarece que o pré-existente não é Jesus, mas o LOGOS que atua na criação e em toda a história porque eternamente gerado pelo Pai e que ao se fazer carne recebe o nome de Jesus. 

 

4. A Crsitologia da Igreja Antiga

Desta forma a cristologia de exaltação não é uma criação dogmática da Igreja ou uma perigosa helenização do cristianismo mas um pressuposto explicitamente bíblico. As expressões neotestamentárias da fé em Cristo resumidas como tipologia de encarnação e tipologia de exaltação são regras de fé básicas para a Igreja posterior. São válidas para todos os tempos e determinantes produzindo unidade e continuidade da comunidade cristã.

O desenvolvimento ulterior da cristologia foi se aperfeiçoando cada vez mais na clareza dos termos e da doutrina. Se Justino no século II tolerava uma cristologia de eleição entre judeus que tinham muita dificuldade com a afirmação explícita da encarnação mas se dispunham a abandonar a antiga lei, Irineu, 30 anos depois, condena veementemente estes judeus-cristãos que se instalaram na comunidade cristã com os nomes de ebionitas, adopcionistas, monarquianistas dinâmicos e outros grupos semelhantes que consideram Paulo com suas cartas, um monte de heresias. Estes grupos, mas também aqueles que reduziam a humanidade de Jesus ou até mesmo a eliminavam como os docetistas ou separavam de maneira radical as naturezas divina-humana do Verbo, foram rapidamente sendo marginalizados porque, de fato, não interpretavam corretamente os fundamentos da cristologia bíblica. Além de Irineu devemos a Inácio de Antioquia (+117) e outros padres gregos antignósticos e, no ocidente latino, a Tetuliano e Cipriano de Cartago entre outros, a permanência da ortodoxia bíblica. No entanto esta só foi solenemente reconhecida definitivamente pelos quatro grandes Concílios Universais e em especial pelo famoso Concílio de Calcedônia no ano 451. 

Antes da fixação do correto fundamental da cristologia um sem número de interpretações as mais variadas, ou acentuando o lado humano em detrimento do divino ou vice-versa, pululavam na cristandade. Um dos mais importantes foi a tese do sacerdote Ario que chegou até a identificar Cristo como uma criatura primordial muito semelhante a Deus mas não identificado com Deus. Nestório garimpava exatamente o campo oposto ao de Ario. As proclamações dogmáticas dos Concílios, no fundo, não estavam preocupadas primariamente em explicar, mas em preservar o núcleo fundamental tendo em vista a relevância salvífica e não a lógica humana. Em todas as interpretações heréticas o fundamento do erro estava em deixar de lado o significado salvífico de Jesus para se deter em teorias que mais satisfizessem a razão humana. O compromisso fundamental da fé cristã não é, em primeiro lugar, com a racionalidade dos enunciados mas com o seu significado salvífico. Só a partir deste significado a racionalidade deve ser buscada.

 

5. A Cristologia até Hoje

O desenvolvimento da cristologia posterior à fixação do fundamental adquiriu consistência e segurança até os dias de hoje.Agora sim, pode-se buscar, em cada época, a racionalidade dos enunciados já dados. Tomás de Aquino desenvolveu a sua cristologia, base para a catequese da Igreja Católica que no fundo não difere das cristologias da reforma protestante excetuando alguns acentos diferenciados. Assim Lutero, apaixonado por Jesus Cristo, o Filho de Deus afirma no seu comentário à Epístola aos Gálatas que "em meu coração reina um único artigo da fé, a saber, a fé em Cristo". Mais à frente ele afirma que "a nossa fé não proclama somente que Deus está em Jesus Cristo, mas que Cristo é Deus mesmo". Como na tradição bíblica a cristologia de Lutero está em função de nossa salvação. Não se busca o ser humano Jesus, abstraindo de sua divindade pois "a humanidade de Jesus traz-nos a salvação posto que somente ela e nenhuma outra está colada a Deus como uma só unidade". Em Calvino a idéia predominante na sua cristologia é a de Mediação. Jesus Cristo é único Mediador como está registrado em 1Tm 2,5. Este é um aspecto fundamental de toda a cristologia cristã que ninguém pode desconhecer. Pela Mediação se evidencia o caráter divino de Jesus que unido à sua e nossa humanidade nos permite o acesso ao Pai, vale dizer, a salvação. Não há outro Salvador! 

Como se vê a doutrina bíblica sobre Jesus Cristo é tão fundamental que independe dos vários lugares de interpretação. É um ponto sobre o qual todos os que se desejam cristãos necessariamente devem estar de acordo. Uma observação final. As cristologias contemporâneas de todas as Igrejas Cristãs não têm tanta preocupação em discutir os fundamentos da doutrina mas os acentos que mais possam ser significativos para o homem de hoje. Daí a divisão em cristologias "a partir de baixo" e cristologias "a partir de cima". As primeiras acertam o foco no significado humano de Jesus para a vida do homem para em seguida produzir a sua exaltação como o destino de todos nós. As segundas partem da divindade de Jesus para descrever a descida e a sua humilhação como grandiosa manifestação do Amor de Deus por nós salvando-nos com a sua presença. Cada tendência procura demonstrar a maior relevância de seu ponto de partida para fecundar a vida dos seres humanos da nossa época. Ambas devem ser mutuamente relacionadas até porque de alguma forma sempre coincidem no ponto de partida ou de chegada.

 

Padre José Cândido da Silva 

Pároco da Igreja São Sebastião - Barro Preto


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